Por @fernandatripode | Em meio ao crescimento de discursos alarmistas sobre a chamada machosfera, consolidou-se no debate público uma narrativa de forte apelo midiático: a de que homens ligados a comunidades incel ou redpill seriam, por definição, mais perigosos e mais propensos à violência contra mulheres.
O problema é que a melhor evidência científica disponível hoje não sustenta essa generalização.
Ao contrário do pânico moral frequentemente reproduzido em reportagens e debates ideológicos, os estudos mais amplos sobre o tema indicam que a imensa maioria desses indivíduos rejeita a violência, e que a associação automática entre frustração afetiva masculina e agressão feminina carece de rigor metodológico.
O pesquisador William Costello, uma das maiores referências internacionais no estudo do fenômeno, enfrentou diretamente essa questão no artigo Why Isn’t There More Incel Violence?, publicado em 2023 ao lado de David Buss.
No texto, os autores são categóricos ao afirmar que, ao contrário da crença comum, as evidências empíricas sugerem que incels não são particularmente propensos à violência.
Mais do que isso, o estudo destaca que a propensão à violência entre incels parece relativamente menor do que na população geral, inclusive em temas sensíveis como violência sexual.
Em uma das maiores amostras já analisadas, 80% rejeitaram completamente a violência, dado frontalmente incompatível com a caricatura do grupo naturalmente perigoso.
Esse dado ganha ainda maior relevância quando se analisa especificamente a hipótese de violência sexual, frequentemente associada de forma automática a esses grupos no debate público. No próprio artigo, os autores destacam que não há evidência empírica consistente de que incels apresentem maior propensão à violência sexual.
Ao contrário, os dados indicam que a disposição declarada para esse tipo de conduta é inferior à observada na população geral, o que contraria diretamente a tese de que a privação afetiva ou sexual funcionaria como fator determinante para comportamentos dessa natureza.
Os autores ressaltam, ainda, que a literatura criminológica aponta que crimes sexuais são mais frequentemente cometidos por indivíduos com maior status social e histórico de sucesso relacional, e não por aqueles excluídos do mercado afetivo, o que enfraquece de forma significativa a narrativa que associa automaticamente incels à violência sexual.
A mesma linha foi reforçada em relatório oficial do governo britânico, produzido para compreender riscos de radicalização entre incels.
O documento apontou que apenas 5% consideraram a violência frequentemente justificável em defesa da comunidade, evidenciando que a aprovação de agressões é residual, e não estrutural.
O dado é particularmente relevante porque vem justamente de um estudo voltado à previsão de danos e radicalização, isto é, de uma fonte institucional preocupada com segurança pública, e não de autores simpáticos ao fenômeno.
A repercussão mais recente no Reino Unido seguiu a mesma direção. Pesquisa sobre a chamada manosphere reconheceu que o risco social dessas comunidades foi, em muitos momentos, superestimado no debate público, apontando que muitos usuários mantêm senso crítico e não aderem a discursos violentos.
Nesse contexto, estudos mais recentes conduzidos no Reino Unido, sob coordenação do órgão regulador de comunicações Ofcom, aprofundaram a análise empírica da chamada manosfera, acompanhando diretamente a jornada digital de usuários em diferentes ambientes online, desde conteúdos amplamente difundidos, como os do podcaster Joe Rogan, até fóruns altamente segmentados, incluindo comunidades incel.
Os resultados revelaram um cenário significativamente mais complexo do que aquele frequentemente retratado em discursos generalizantes.
Embora uma minoria dos participantes tenha sido exposta a conteúdos explicitamente misóginos, a maioria demonstrou comportamento crítico, seletivo e guiado por valores próprios, sendo capaz de descartar conteúdos incompatíveis com suas convicções.
Mais do que isso, a pesquisa evidenciou que a chamada manosfera está longe de constituir uma comunidade homogênea.
Trata-se de um ecossistema fragmentado, composto por um universo fragmentado em diferentes grupos com dinâmicas próprias, frequentemente distintas entre si e, muitas vezes, indevidamente agrupadas no debate público.
O estudo investigou diversos desses segmentos, permitindo uma compreensão mais precisa de sua diversidade interna.
Foram analisadas comunidades associadas ao chamado red pill, formadas por homens que acreditam que as estruturas sociais contemporâneas operam de maneira desfavorável aos homens, especialmente no campo das relações afetivas e familiares.
Ao lado dessas, foram examinadas as comunidades black pill, marcadas por uma visão mais determinista e pessimista, segundo a qual fatores como aparência física limitariam de forma significativa as possibilidades de relacionamento, sobretudo para homens considerados fora dos padrões estéticos dominantes.
Também foram objeto de análise as comunidades incel, compostas por homens que se identificam como involuntariamente celibatários, isto é, que não conseguem estabelecer relações afetivas ou sexuais, frequentemente associando essa condição a fatores sociais ou estruturais.
O estudo incluiu ainda grupos conhecidos como homens seguindo seu próprio caminho, ou MGTOW, que defendem o afastamento voluntário de relações afetivas com mulheres como forma de preservação de autonomia pessoal, bem como comunidades de ativistas dos direitos dos homens, voltadas à discussão de temas como guarda, convivência familiar e assimetrias jurídicas.
Além disso, foram analisados os chamados artistas da sedução, focados em estratégias de interação social e atração, assim como grupos voltados ao aprimoramento da aparência, nos quais jovens compartilham técnicas e orientações destinadas à melhoria estética, incluindo discussões sobre traços faciais, como a busca por maçãs do rosto mais definidas ou o chamado olhar de caçador, frequentemente associado à tentativa de aumento do chamado valor de mercado sexual.
Esses espaços se articulam, ainda, com conteúdos de autoaperfeiçoamento, debates sobre masculinidade contemporânea e discussões mais amplas sobre política de gênero, conformando um campo discursivo amplo, multifacetado e de significativa complexidade analítica
A pesquisa também identificou que muitos participantes se sentem incompreendidos no debate público, justamente porque conteúdos de natureza distinta são frequentemente agrupados sob uma mesma etiqueta, o que contribui para a construção de estigmas generalizantes.
Outro achado relevante foi a motivação de ingresso nesses ambientes. Em diversos casos, os participantes relataram que foram atraídos por fatores como humor, irreverência, possibilidade de debate aberto, identificação com determinadas experiências pessoais e interesse em discussões sobre papéis de gênero e dinâmicas familiares, e não por qualquer predisposição à hostilidade.
O relatório destaca, ainda, que muitos desses usuários demonstraram compromisso significativo com valores de justiça e igualdade de tratamento, revelando sensibilidade a situações percebidas como injustas ou discriminatórias, inclusive quando relacionadas a questões masculinas.
O estudo foi conduzido pela empresa Revealing Reality, sob encomenda da Ofcom, tendo como autor principal o pesquisador Damon De Ionno, que afirmou, em declaração ao jornal The Guardian, que os dados sugerem que a sociedade tem superestimado o risco representado por esses ambientes.
Segundo ele, a maior parte desses espaços não possui capacidade de radicalizar indivíduos que demonstram senso crítico e orientação por valores próprios.
Isso não significa negar a existência de nichos misóginos online, assim como de manifestações de misandria, como será demonstrado adiante. Significa, antes, separar com honestidade intelectual casos extremos e criminosos de uma generalização abusiva lançada sobre um universo heterogêneo de indivíduos e grupos que discutem papéis de gênero, dinâmicas familiares e outras questões sociais contemporâneas.
O debate ganha ainda mais densidade com o estudo publicado na revista Nature, que parte justamente de uma lacuna importante da literatura contemporânea. Embora a misoginia digital seja amplamente reconhecida e debatida, a misandria permanece significativamente menos explorada no ambiente acadêmico, gerando um desequilíbrio analítico na compreensão do discurso de ódio sexista no meio online.
Buscando corrigir essa assimetria, os pesquisadores examinaram quatro comunidades declaradamente misóginas e misândricas do Reddit, submetendo-as a uma análise comparativa em três eixos centrais, linguagem, estrutura emocional e organização relacional das comunidades.
O objetivo foi verificar se, considerados fatores heterogêneos e adotada uma perspectiva bidirecional, tanto do homem contra a mulher quanto da mulher contra o homem, haveria discrepâncias substanciais e sistemáticas entre os grupos.
O resultado foi particularmente incômodo para leituras ideológicas seletivas. A avaliação experimental não identificou diferenças sistemáticas relevantes entre comunidades misóginas e misândricas, revelando que os padrões de hostilidade, reforço grupal, retroalimentação emocional e construção discursiva do ressentimento seguem lógicas estruturalmente semelhantes.
Em outras palavras, o elemento central não é o sexo de quem profere o discurso, mas a própria dinâmica de comunidades nocivas, marcadas por ressentimento coletivo, validação recíproca de hostilidade e bolhas emocionais que reforçam visões extremadas.
A conclusão científica é expressiva ao sugerir que o discurso de ódio sexista não é agravado pelo gênero dos perpetradores, mas constitui um mecanismo comum a ecossistemas digitais tóxicos, independentemente de serem compostos majoritariamente por homens ou mulheres.
Essa constatação desloca o foco do debate: em vez de demonizar rótulos como redpill ou incel, a ciência aponta para fatores como isolamento social, sofrimento psíquico, ideação suicida, retraimento afetivo e dinâmicas de reforço coletivo em comunidades online fechadas.
O próprio estudo de Costello observa que, em muitos casos, o fenômeno se aproxima mais de sofrimento internalizado do que de violência direcionada ao outro.
A conclusão que emerge das melhores pesquisas internacionais é clara: a associação automática entre incel e redpill e violência contra mulheres é cientificamente frágil, estatisticamente superdimensionada e intelectualmente desonesta quando usada como rótulo generalizante.
No ambiente jurídico e social brasileiro, onde conceitos são frequentemente instrumentalizados para silenciamento, censura moral e construção de estigmas coletivos, a leitura séria dos dados se impõe.
O papel do debate público não deve ser o de reproduzir medo, mas o de separar evidência de narrativa.
E, neste ponto, a evidência é inequívoca: a ciência não confirma o mito do incel naturalmente violento.
Referências
- Costello, William; Buss, David. Why Isn’t There More Incel Violence? Adaptive Human Behavior and Physiology, 2023.
- Government of the United Kingdom. Predicting harm among incels (involuntary celibates): the roles of mental health, ideological belief and social networking.
- Nature. Women who hate men: a comparative analysis across extremist Reddit communities.
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